24 de mai de 2019

Não Seja um Olavete - Porque a Manifestação do dia 26 vai Afundar o Presidente


Quando a miopia política atinge parcela expressiva da população, mas, sobretudo o próprio presidente, normalmente é quando as emoções falam mais do que o senso estratégico, então se faz necessário pontuar de forma clara e detalhada não apenas o atual cenário político como também os desdobramentos, no futuro, de determinadas atitudes. Sem modéstia alguma afirmo que não teve analista ou "guru" algum que previu nos últimos 5 anos o cenário da política como eu previ (com alta porcentagem de acerto) e exatamente por isso me sinto na obrigação de alertar, de forma ainda mais clara, porque as manifestações do dia 26 serão um desastre político para o presidente. 

Ao leitor que acompanha o que escrevo há alguns anos ou o que está conhecendo minhas análises políticas pela primeira vez preciso informar, brevemente, que desejo o sucesso do governo Bolsonaro, não apenas pelo político honesto sem condenações ou inquéritos por corrupção que ele é como pelo time que ele montou no governo com um economista de viés liberal (Paulo Guedes), um estrategista para combater a corrupção (Moro) e uma cúpula ministerial de base militar com os quadros mais moderados que a direita poderia produzir. Previ no início de 2014 que teríamos um escândalo maior que o mensalão (poucos meses depois veio a Lava Jato) previ que gente graúda seria presa, que Dilma cairia, que Lula seria preso e outras previsões que soaram surreais na época. Previ que os militares ascenderiam ao poder até 2018 ainda durante o ano de 2014. Lutei com afinco desde essa época contra o petismo e soube, desde 2014, que o caminho do Brasil para tirar o petismo do poder e colocar os militares estava traçado. Enquanto alguns "analistas" previam que o Brasil estava fadado ao comunismo eterno após a eleição de Lula e que os militares não impediriam a ascensão total da esquerda como ocorrera na Venezuela eu sempre expus exatamente o contrário, mostrando que o guru da Virgínia não tinha razão. Então (desculpem pelo longo parágrafo) sinto a obrigação de compartilhar o que se desenha para o futuro próximo, mais uma vez transmitindo sob o auxilio dos guardiões superiores que desde 2014 tem ajudado de forma mais próxima esse trabalho de tentar desvelar com a maior clareza possível o que se desenha no horizonte da geopolítica brasileira

O primeiro ponto que devemos considerar quanto a essa manifestação é que ela não foi espontânea. Quando o presidente soltou a mensagem no whatsapp falando da incapacidade de conseguir governar o país e de um Congresso dominado por interesses escusos os grupos ideologicamente mais próximos do olavismo (os olavetes, a ala radical da direita) já estava avisada e pronta para começar a mobilização. O segundo ponto é que essa mobilização, motivada exatamente por esse texto do presidente não foi a pauta das reformas ou pacote anticrime mas sim contra o centrão, contra o Congresso corrupto. Os principais grupos organizadores, que se reconhecem claramente como olavetes e os principais influenciadores do youtube ideologicamente ligado ao olavismo deixaram isso bem claro, em vídeos, nos banners e tweets ainda que exista um pequeno verniz para tentar transmitir a imagem de que é uma manifestação pelas reformas. Não, essa é uma manifestação organizada por olavetes e com a pauta principal se manifestar contra o centrão. Esse é o motivo pelo qual, muitos membros moderados da direita como os generais Santos Cruz e Paulo Chagas, Janaina Paschoal, Joice Hasselman, parte da bancada do PSL, Lobão, Rodrigo Constantino, Arthur e demais membros do MBL e do Vem Pra Rua, além de parte expressiva do empresariado que apoiou Bolsonaro e os liberais da direita, como Marcel Von Hattten colocaram posição de não comparar a manifestação

A ala olavete é a verdadeira responsável pela crise de governabilidade que o presidente vem passando, exatamente pela total falta de senso estratégico e de articulação política, que começou exatamente no caso da comitiva do PSL que foi pra China e que foi achincalhada pelo guru da Virgínia (que poderia ter conservado de forma privada ou se manifestado de forma educada), isso sem falar no ataque direto a cúpula de militares escolhida pelo próprio presidente de forma anticristã, anticonservadora, com vocabulário que nem um filósofo de botequim usaria  e por motivos dos mais pueris como entrevista para o Bial (que o próprio guru também concedeu) ou fotos com membros da esquerda (sendo que o próprio Olavo afirmou que trabalharia com Suplicy e já tirou foto sorridente com Gilmar Mendes) tudo isso culminando com ataques das hostes olavistas contra outros membros da direita que lutaram de forma ostensiva para derrubar o petismo e pela divulgação das idéias da direita, como o caso da Janaina e do Arthur entre tantos outros.

Enquanto a ala olavete e os discípulos olavetanos não forem formalmente afastados e rechaçados pelo presidente (que ao contrário tem se aliado cada vez mais a esse grupo) será impossível formar qualquer aliança política mais sólida dentro do Congresso, pois os olavetanos enxergam os parlamentares do centrão (e alguns até mesmo o Congresso inteiro) como ilegítimo, corrupto. Como esperar que o governo firme uma aliança, uma base de votos dentro do Congresso e dentro da própria direita com uma ala histriônica que ataca todo mundo da própria direita porque acreditam que direita é apenas quem segue de joelhos o que Olavo diz ou ensina? É claro que não tem como dar certo. Por esses primeiros pontos a manifestação em si já seria um desastre do ponto de vista político, pois automaticamente dificulta ainda mais que o governo forme uma base política dentro do Congresso e dentro da direita, pois transmite a mensagem que o presidente pretende continuar alimentando a aliança pessoal com o olavismo.

Mas calma, ainda estamos no começo. Tem mais. Só existem três situações de mobilização popular que causam movimentação ou apreensão no Congresso.   

1) Em época próxima de eleição (os deputados ficam mais sensíveis ao clamor das ruas porque desejam a reeleição) e devemos considerar que os parlamentares estão com menos de 6 meses de mandato

2) Se a vontade popular expressa uma situação política já consolidada (exemplo: impeachment da governanta, ela já contava com alta rejeição dentro do Congresso e somado a isso o forte apoio popular pelo impeachment apenas acelerou a vontade da maioria do Congresso, inclusive porque boa parte dos parlamentares viu uma clara chance de acabar com a hegemonia petista)

3) O temor das forças armadas (o Congresso sabe que somente o Exército é capaz de mudar o sistema constituído, seja por vontade própria como foi no processo de abertura nos anos 80 ao ouvir a população ou por uma ameaça institucional, como foi nos anos 60 com a ameaça comunista)

Como o Congresso não está nem em época de eleição e muito menos há o temor que as forças armadas apóiem uma revolução popular para derrubar o poder Legislativo, não há qualquer temor por parte do Congresso, mesmo se que se coloque um milhão, três milhões de pessoas na rua, isso apenas vai aumentar a percepção do Congresso que Bolsonaro não deseja fazer política e que deseja alimentar o nós contra eles (ou seja, seus apoiadores mais radicais que são as olavetes contra o Congresso) 

Aqui é importante um adendo: como expliquei no post "Olavo versus militares" (deixarei o link ao final) Olavo não apenas lutou para derrubar o marxismo ou combater o marxismo cultural ( o que nesse ponto o colocou como aliado pontual da direita para eleger Bolsonaro) mas o seu objetivo vai além disso: ele acredita que somente um Executivo forte, na imagem de um imperador quase absolutista ou com poderes moderadores (algo que só existe hoje nas monarquias do Oriente Médio) aos moldes do absolutismo monárquico da Idade Média em estrita aliança com a Igreja Católica (a volta da Santa Inquisição funcionando como o novo STF) seria a única forma de se estabelecer um governo conservador e próspero (inclusive linkei no post todos os vídeos que ele mesmo afirma isso) o que explica não apenas a crença do guru de que a Idade Média era melhor do que a Renascença, o Iluminismo e o que veio depois (ou seja, as democracias modernas) como também explica a repulsa do "filósofo" ao heliocentrismo (óbvio, pois Galileu fora condenado pela "Santa" Inquisição) e a cientistas como Darwin, Newton e Einstein que trouxeram comprovações científicas que colocaram por terra conceitos bíblicos, o que obviamente um amante da Idade Média absolutista católica jamais toleraria. O olavismo acredita que é possível uma revolta popular que derrube os poderes constituídos e que permita a criação de um governo messiânico absolutista, acreditam inclusive que podem manobrar a população para realizar essa revolução e que conseguiriam sobrepujar até mesmo o Exército (que obviamente não permitiria a escalada de uma insanidade dessas). Por isso o esforço do olavismo em atacar os generais da cúpula do governo, pois na cabeça deles sem colocar o povão contra os militares não tem como se fazer revolução popular messiânica. 

Estão entendendo o que realmente está por trás da idéia que os olavetes têm dessa manifestação? 

Dito isso, o centrão não apenas está despreocupado com o tamanho da manifestação do dia 26 (por saber que as eleições ainda estão distantes e não há o perigo de uma intervenção militar) como já traçou a estratégia para anular o presidente Bolsonaro, independente que ele estimule mais duas, três ou dez manifestações nos próximos meses.  A estratégia é muito simples: Maia aproveitou o vácuo de poder político deixado pelo presidente para tomar conta do Congresso. Enquanto o presidente e a cúpula do governo tinha que se preocupar com crises internas desencadeadas pela cúpula olavista (contra Bebiano e depois contra os militares) deixou a articulação de lado, ou seja, não formou uma base parlamentar no Congresso.

E aqui é preciso dizer claramente: isso aconteceu porque o presidente se recusou a dialogar. O partido do presidente elegeu 55 parlamentares, a bancada liberal sempre apoiou a maioria das reformas (como vimos na votação da mp 870 e sobretudo do coaf) assim como boa parte da bancada ruralista, evangélica e da bala. Até mesmo dentro do chamado centrão (um grupo de mais ou menos 200 deputados que reúne gente de paridos pequenos do "baixo clero" bem como deputados do dem, mdb, pp e outros) o presidente contava no inicio do mandato com votos favoráveis, tanto isso é verdade que mesmo sem articulação alguma a votação do coaf rendeu 210 votos ao governo (sendo que o governo precisa de uma base de 310-320 votos) o que por si só ja anula a tese de Congresso corrupto ou centrão corrupto. A própria característica fisiológica de boa parte dos parlamentes do centrão é obter decretos e liberação do orçamento que estão perfeitamente de acordo com as regras republicanas de política. Bolsonaro simplesmente se recusou a fazer política, acreditou que bastaria ordenar e o Congresso obedeceria e que assim o país andaria, o que está longe de ser o regime presidencialista, no qual Executivo e Legislativo precisam dialogar.  

Maia se aproveitou desse vácuo político deixado pelo presidente e se elegeu com folga para presidente da Câmara em primeiro turno, conseguindo ele próprio formar maioria para votar o que quiser dentro do Congresso. O DEM, partido de Maia, conta não apenas com a presidência das duas casas, como um ministro importante no governo (Onyx) e controle do Congresso. Maia percebeu a partir desse ponto que por imprudência, Bolsonaro concedeu as ferramentas políticas necessárias para o DEM se cacifar não apenas como uma direita liberal moderada, mas também como o partido fiador das reformas econômicas. Não é segredo que DEM e PSDB planejam a fusão de forças e até mesmo dos partidos com vistas as eleições de 2022 para a presidência e governos. Então qual a estratégia adotada? Ninguém quer assumir em 2022 um país quebrado ao mesmo tempo que sangrar politicamente o presidente apenas causaria maior agitação do eleitorado (afinal ele foi eleito com quase 60 milhões de votos) então Maia decidiu que a estratégia seria isolar politicamente Bolsonaro, ou seja, impor sucessivas derrotas no Legislativo e ao mesmo tempo fazer com que o próprio Congresso proponha as leis e projetos, como aconteceu nessa semana com a reforma tributária e mesmo dentro da própria reforma da previdência. Isolar politicamente o presidente mostrando para a nação que ele não tem poder algum de gestão política e que todas as reformas pelo bem do país estão sendo criadas e conduzidas apenas pelo Legislativo. Um presidente que fique sem força política dentro do Congresso por quatro anos e um conjunto de parlamentares mostrando serviço aprovando uma série de reformas econômicas é a estratégia de Maia para cacifar o DEM para as eleições presidenciais de 2022, algo que para Maia seria mais interessante do que paralisar economicamente o governo ( o que a não aprovação do crédito suplementar de 250 bi faria), pois isso apenas atrasaria o protagonismo do Congresso na retomada do crescimento do país e ao mesmo tempo uma eventual pedalada ou processo de impeachment contra Bolsonaro apenas insuflaria agitações sociais e a subida de um general (Mourão) a cadeira presidencial)

Essa é a estratégia de Maia que sabe que mesmo não consiga derrotar Bolsonaro em 2022 através de um candidato (provavelmente Dória) mesmo assim poderá agir da mesma forma por mais 4 anos. Outro ponto nessa variável é que dificilmente os militares apoiariam a reeleição de Bolsonaro caso ele insista até 2022 em permanecer aliado do olavismo e sem formar uma base política no Congresso. Naturalmente nomes como Guedes e em especial Moro seriam os escolhidos para representar uma direita mais moderada, enquanto cada vez mais o presidente, nesse cenário, estaria isolado politicamente dentro do Congresso e cada vez mais identificado com o olavismo.

Ou seja, em todos os cenários possíveis essa manifestação e a insistência de Bolsonaro em não formar uma base política no Congresso e continuar alinhado ao grupo dos olavetes vai deixá-lo cada vez mais imobilizado na presidência, restando insistir em chamar as pessoas para as ruas o que tende a gradualmente enfraquecer, sobretudo se o Congresso conseguir passar as reformas econômicas que deseja

A única, única saída do presidente é TRABALHAR, fazer POLITICA dentro do regime presidencialista, parar de atiçar as ruas e de dizer que não pode governar, aceitar o jogo democrático como ele é, formar uma maioria simples no Congresso e começar a governar, qualquer tentativa fora disso ou que estimule algo fora disso é um tiro no pé e que só vai atrasar a capacidade política do presidente de governar

Não há como governar pelo twiter ou achar que as ruas farão a articulação política que ele não tem feito na sua base. Já falei aqui, tem que por a Joice na articulação com o Congresso, pacificar o PSL, negociar homem a homem com os elementos da bancada ruralista, da bala, dos evangélicos e procurar atender, dentro dos limites republicanos, as demandas da bancada mais fisiológica que é o centrão, visto que o único grupo que realmente não tem como o governo tirar da oposição é o grupo de 140 parlamentares do pt, psol e satélites marxistas.

Se o presidente joga o centrão todo no colo do Maia e não forma nem uma base com aqueles que ele ajudou a eleger, então como ele espera aprovar as coisas no Congresso? Na base do grito, do xingamento, com os pitbulls de twiter? Com a seita olavetana que acha comunista qualquer um que discordar uma vírgula do guru desbocado da Virginia?

Tá na hora do presidente escutar os militares e a ala sensata da direita e começar a trabalhar, parar de fazer "nós contra eles" com o Congresso e começar a unir a sua base e iniciar um grande dialogo de conciliação com o Congresso e com o povo pelas reformas como foi feito na época do plano real, sem isso o governo vai naufragar nas mãos de um parlamentarismo branco, pois se o presidente abre um vácuo de poder, o Legislativo toma conta e não adianta gritero na rua e twet malcriado ou se achar enviado de Deus que isso não vai mudar a posição dos parlamentares.

Por isso eu e vários outros da direita não apoiamos essa manifestação do dia 26, manifestação essencialmente organizada por olavetes e que em nada vai contribuir para a harmonia dos poderes e para o governo do presidente, pelo contrário, vai enfraquecer ainda mais o presidente diante do Congresso.

Bolsonaro tem tudo para fazer um bom governo, não é difícil unir uma base de 310 parlamentares, sendo que 210 já se mostraram dispostos a participar do governo. Mas isso só vai acontecer com dialogo e política dentro do Congresso e não com griteiro contra o centrão ou maluquices messiânicas antidemocráticas de gente que nunca foi cristã ou conservadora, mas essencialmente marxistas de direita.

Essa manifestação do dia 26 apenas vai ajudar a afundar politicamente o presidente dentro do Congresso. O que realmente vai fazer com que ele consiga governar é formar uma base política no parlamento, romper formalmente com a seita olavetana e começar a tomar pra si o protagonismo político para o qual foi eleito, não porque seja um messias ou um enviado para ser o imperador do Brasil, mas pelo voto de milhões para exercer um mandato dentro do regime democrático e dentro dos protocolos republicanos permitidos. Qualquer coisa fora disso é afundamento político.

Olavo versus militares - Vamos entender o que está acontecendo:



O projeto absolutista olavista versus os militares:



As previsões trazidas desde 2014 sobre a geopolítica do Brasil cumpridas nos últimos anos:



18 de mai de 2019

Bolsonaro e o Futuro Próximo do Brasil – Como o Presidente pode Evitar o Impeachment


Hoje o tio Zé trará noticias alvissareiras para os leitores que estão em cólicas com os últimos acontecimentos. Sem panos quentes, sem dourar a pílula, mas mandando a real e mostrando que temos um bom caminho de salvação do Brasil, nem tão difícil assim e que permitirá que o presidente cumpra seu mandato. Tá curioso? Então lá vem textão 

Muita gente perguntando se Bolsonaro vai chegar ao final do mandato e como será o futuro próximo do país. Então vou recapitular exatamente o que previ (com boa medida de acerto diga-se de passagem) até aqui e quem quiser conferir busque ler os posts que serão citados

Primeiro de tudo: previ lá em 2014 que teríamos a queda definitiva e a ascensão dos militares. Está escrito em pormenores no livro "Brasil o Lírio das Américas". E mais ainda: um cenário de duas grandes possibilidades com os militares no poder: um de união pelas mudanças e outro de revolução, confrontos, em especial a partir de 2020 (essa parte inclusive eu linkei no texto com a imagem do Paulo Guedes sobre os 3 principais pilares econômicos que precisamos aprovar nas próximas semanas). Ou seja, deixei bem claro: ascensão dos militares.

Em texto de 06 de dezembro de 2018 publicado aqui na fanpage falei amplamente sobre alguns delírios das olavetes. Quando os ataques mais abertos contra os militares começaram deixei ainda mais claro que só existia governo Bolsonaro se fechado com os militares. Isso está claro em vários textos em especial a partir de 2019

Dentre esses textos mencionei também que na queda de braço entre militares e os filhos do presidente, os militares venceriam, como tem vencido, mas que ainda assim teríamos problemas até o final do ano por insistência dos filhos. Ao mesmo tempo afirmei que teríamos a aprovação da reforma da previdência (essas informações estão nos texto de 15 de fevereiro e 21 de fevereiro)

No texto de 22 de dezembro de 2018 deixei claro o caminho necessário para o desaparelhamento do Congresso e do STF: um profundo processo de união do governo com os militares e a população debatendo reformas e já preparando a população para um plebiscito (semi constituinte) em 2020 se as reformas fossem barradas no Congresso. Nada disso foi feito, nem articulação com a população, nem qualquer diálogo estratégico com o Congresso e o pior ponto: permitir que gente da direita xingasse os militares, a alta cúpula do governo sem a devida resposta do presidente. Inclusive o inicio dessa crise, com a demissão do Bebiano que iniciou todo o processo de tentativa de fritura dos militares por conta das olavetes foi previsto no post do dia 04 de fevereiro

Portanto os alertas foram feitos com antecedência, assim como as previsões dos cenários que estavam por vir caso os caminhos corretos não fossem tomados. A partir do momento que o presidente escolheu os rumos que escolheu é óbvio que ele se aproxima muito mais do cenário revolucionário de 2020 descrito no livro que lancei em 2014 (Brasil o Lírio das Américas).

Ainda dá pra salvar o governo e evitar todo esse cenário, mas como disse nos dois últimos posts: não há tempo para meias medidas. E sinceramente eu não sei se o presidente está disposto a romper com o olavismo e fechar 100% com os militares, seguindo os conselhos destes de iniciar um profundo diálogo e conciliação com o Congresso, uma profunda campanha junto a população e ao Congresso como aquela feita para o plano Real. 

Sinceramente eu não vejo essa disposição no presidente, ao contrário, ele não aproveitou o capital político dos primeiros 3 meses de governo no qual deveria ter estreitado laços com o Congresso e com a população, ao contrário, crises internas dentro da própria direita foram alimentadas assim como discursos de fechamento do Congresso. Como esperar que o Congresso trabalhe por reformas se o governo não busca diálogo e ainda estimula sua base de eleitores a achincalhar o Congresso como símbolo da "velha política", colocando todo mundo (inclusive a base aliada eleita) no mesmo balaio de corruptos da velha política contra o país? O governo conseguiu a proeza de não formar sequer a base coesa no próprio partido com mais de 50 parlamentares (e em boa parte pelas críticas intestinas do olavismo contra os deputados). Bolsonaro contava com vários parlamentares simpáticos as reformas econômicas no início do mandato, desde os liberais do novo e mbl, passando pela bancada ruralista, da bala e evangélica e ao invés de unir essa base ele simplesmente achou que ia ordenar e todo mundo iria obedecê-lo sem contestação, sem diálogo? Bolsonaro deu as costas para o diálogo com a sua própria base, sequer formou uma base no Legislativo deixou um vácuo de comando aberto que obviamente não ficaria vazio, entregou de mão beijada o controle de todo o Congresso nas mãos do presidente da Câmara. 

O QUE MAIA E O CENTRÃO DESEJAM?

Maia deseja protagonismo, se colocar como uma opção moderada contra o petismo e menos histriônica do que o olavismo, por isso tem feito questão de dizer que "vai aprovar as reformas sem o governo ou apesar dos sobressaltos internos do governo", pois ele quer ganhar tutano político junto com o Congresso em cima da briga entre governo / militares versus ala olavista. Pra isso Maia tem usado, ou melhor, manipulado a seu favor o interesse da banda podre do centrão (parlamentares de oposição e também gente suspeita ou enrolada com a justiça) juntamente com o grupo dos insatisfeitos com a postura agressiva do governo de dizer que é tudo culpa do Congresso corrupto. Maia deseja cacifar o DEM para as próximas eleições, tanto nas prefeituras como nos governos, por isso tem reafirmado que a reforma da previdência vai passar e tem dado continuidade a reforma tributária. Esse é o objetivo e estratégia de Maia: mostrar protagonismo do Congresso, que estão trabalhando e que quem está tumultuando e batendo cabeça é o governo. 

Dito isso não é muito complicado estrategicamente para o governo reverter isso, pois assentando e pacificando a própria base (sobretudo o próprio partido) o governo rapidamente retomará o controle da maioria que precisa e pode assim dividir o protagonismo com o Congresso (algo que Bolsonaro estava tentando fazer antes que a crise envolvendo o nome de Santos Cruz viesse a baila por parte da ala olavista), pois o interesse de Maia (eleito por ampla maioria do Congresso em primeiro turno) e do centrão (a maioria de bancadas simpáticas ao programa do governo e anti petista) não é ser um novo pt mas sim um grupo com protagonismo político e que exatamente por isso tem reagido impondo tantas derrotas ao governo, pois não aceita a postura do governo de condenar todo o Congresso como corrupto ou contra o Brasil e ao mesmo tempo se aproveitam da falta de coesão do governo (ataque da direita histriônica contra os militares) para ganhar musculatura dentro do Legislativo sobre o Executivo.

Por tudo isso não é difícil para o governo conciliar os interesses do Executivo com o Legislativo, o ponto central é que pra isso a ala histriônica da direita (olavismo) precisa ser afastada, pois está claro para o Legislativo que é ela que estimula o discurso mais agressivo contra o Congresso   

O TRUNFO PARA VENCER AINDA DENTRO DA DEMOCRACIA

O caminho para solucionar esse imbróglio está nos dois textos que escrevi recentemente (linkarei ao final), mas resumindo: a ÚNICA saída para Bolsonaro é fechar com os militares em prol da união com o povo e com o Congresso por um grande pacto entorno das 3 ações/reforma econômicas para reerguer a economia, pois se continuar permitindo olavistas atacando o governo (sem que de uma resposta dura) ou estimular caneladas contra o Congresso por parte dos seus eleitores, aí é que não sai apoio algum no Congresso. É preciso também pacificar o PSL, unindo os políticos da base aliada com os militares deixando claro para ambos que não será mais aceita interferência olavista no governo, um compromisso pessoal do governo que o olavismo será retirado do governo e que nenhum ataque de qualquer olavista contra o governo ficará sem uma dura resposta do presidente.

Essa é a única saída, pois sem esse apoio político e dos militares nada impedirá Bolsonaro de ser impichado, visto que sem crédito suplementar ele terá que pedalar para pagar salários e aposentadorias e outras despesas da União e não terá apoio político para escapar de um impeachment. Mais ainda: sem esse apoio ou pacto com os militares, os militares não terão motivo algum para fechar Congresso ou impedir o processo de impeachment, pois terão um vice (Mourão) muito mais alinhado com o Alto Comando e com a base política simpática as reformas pronto para assumir. Então só há esse caminho para Bolsonaro não ser impichado, união total com os militares, foco em congregar a base e o Congresso e fundamentalmente limar o olavismo do governo, um pacto formal com todos esses atores políticos.

Caso faça isso Bolsonaro e o governo terão o discurso claro de união e de apoio popular pelas reformas colocando o ônus da aprovação nas costas do Congresso, ao mesmo tempo que contarão com a simpatia daqueles que desejam as reformas mas que não desejam ser colocados no mesmo balaio de petistas e parlamentares investigados. Ou seja, o governo precisa parar de afastar os aliados em potencial e pra isso precisa mudar a postura na articulação como expus aqui.

Se mesmo assim tudo isso não der certo, Bolsonaro terá ainda o apoio dos militares e poderá tentar uma cartada no caso do crédito suplementar não ser aprovado: um plebiscito pela aprovação de algumas reformas, pois pelo art 18 da CF basta apenas metade mais um voto no Congresso para esse tipo de decreto pelo Legislativo. Por isso ele precisa se unir aos militares e criar uma mínima base coesa dentro do Congresso, pacificar os ânimos. Essa é a forma de burlar, democraticamente, um Congresso que porventura tenha um número alto de parlamentares que não deseja trabalhar pelas reformas, apenas com metade dos parlamentares o governo pode governar por  plebiscito (isso ocorre muito na Suíça e já foi até dado como exemplo por Paulo Guedes em entrevistas) nas questões que não forem passíveis de decreto presidencial.

O grande “pulo do gato” nessa questão é que, pela lei, não existe uma definição constitucional apontando se o resultado do plebiscito precisa ser cumprido imediatamente pelo Congresso ou se seria apenas uma “consulta” que ainda assim precisaria de 3/5 dos votos no parlamento para ser aprovada (o que não faz sentido, afinal o plebiscito é exatamente para mostrar a opinião direta da maioria popular acima do Legislativo, escolhido pela mesma maioria popular). O grande pulo do gato é já colocar no plebiscito uma lei que legisle sobre o tema, ou seja, o resultado da votação do plebiscito deve ser de implementação imediata. Com esse artifício o governo que conta com amplo apoio popular mas limitações de negociação com o Congresso tem uma forma mais fácil de aprovar medidas importantes sem que precise de 3/5 dos votos mas sim apenas a metade dos votos mais um, tanto do Congresso como da população

Todas essas estratégias são caminhos melhores do que uma intervenção militar pelo artigo 142. Até porque no caso da maioria do Congresso aprovar o plebiscito e a maioria da população apoiar determinada medida do governo isso facilitaria muito mais uma resposta dos militares (art 142) contra qualquer barreira colocada pela presidência da Câmara ou no STF, com uma prova clara que o Legislativo estaria se recusando a cumprir a vontade da maioria. Essa é a brecha que Bolsonaro tem para acelerar o processo de reformas. 

Com o mínimo de coesão política com sua base e os militares Bolsonaro pode plenamente governar, pois mesmo que não tenha 2 terços do Congresso ele conta com metade além do apoio da população e pode dar essa "pedalada" no Congresso, dentro da lei e dentro da democracia. O ideal seria fazer isso apenas nas eleições de 2020, mas se a coisa toda se precipitar de forma intensa como tem se desenhado no horizonte, então ainda em 2019 isso pode ser feito. É um trunfo que Bolsonaro tem para negociar positivamente com o Congresso, pois todo mundo sabe do poder que ele tem nas redes e que se entrarem em um acordo, o Congresso pode evitar a exposição ao voto popular mostrando claramente que o Legislativo agiu contra o interesse da maioria da população caso não aprove alguma das reformas.

O caminho mais uma vez está ai presidente, não é difícil, mas não há mais tempo pra erros e meias medidas 

Os três pilares econômicos:


O caminho para sair da crise:


Por fim é importante que eu retifique dois erros no meio desses acertos: a grande guerra que se aproximava não era apenas em relação ao STF e a banda podre dentro do Congresso (não o Congresso inteiro), mas em relação a própria ala olavista e apesar de ter visto essa guerra no horizonte próximo (o texto foi publicado em final de março) não vislumbrei de forma clara que a ação do olavismo seria tão daninha ao governo:


"O STF e a banda podre do Congresso sabem que Bolsonaro precisa do apoio do Congresso para aprovar a fundamental reforma da Previdência e por isso ele não pode agora governar por medida provisória ou decreto. Exatamente por isso eles estão endurecendo o jogo, tanto com o acordão para dificultar a investigação dos crimes de corrupção pela Lava Jato como dificultar a aprovação do pacote anticrime de Moro. O objetivo é testar o novo governo, testar a capacidade de reação política e saber ate onde Bolsonaro, Moro e os militares estão dispostos a ir para combater a corrupção.

O governo precisa juntar os aliados para aprovar as duas reformas juntas, Previdência e pacote anticrimes (que na prática cria uma lei e põe abaixo o acordão feito pelo STF) ao mesmo tempo que precisa anular a pec da bengala, pois só assim Bolsonaro poderá desaparelhar a corte. 

Só que para juntar os aliados, Bolsonaro precisa de ARTICULAÇÃO o que falarei a seguir"

Texto completo:


E o segundo erro foi superdimensionar a aprovação das medidas econômicas (como a Previdência que acredito sim será aprovada entre junho e julho como previsto) e minimizar a capacidade de geração de crise do governo, o que resulta numa avaliação improvável de crescimento de 5% para o final desse ano. Se fizermos os 3 pilares citados nesse texto dá pra buscar uns 3% mas realmente, os 5% está fora do horizonte para esse ano de 2019

As previsões cumpridas desde 2014 sobre o futuro próximo do Brasil (clique na imagem abaixo):